Do herói ao louco: a transmutação do analista e os vértices do campo Uma leitura psicanalítica de “João e Maria”, de Chico Buarque
- Pedro Flávio Castro
- há 3 horas
- 5 min de leitura
Por Psicanalista Pedro Castro
Ouvir “João e Maria” é entrar em um jogo de metamorfoses. O eu-lírico se faz herói, rei, bedel, juiz, peão, bicho preferido, louco. A cada estrofe, um vértice diferente. A cada verso, uma nova posição subjetiva. O que, para a canção, é poesia, para a psicanálise pode ser um modelo — uma analogia viva — do que o analista é chamado a fazer no campo do encontro clínico: transmutar-se, habitar diferentes vértices sem se fixar em nenhum, sustentar a fluidez da função sem perder a continência.
Chico Buarque nos dá, nessa canção, uma cartografia das posições psíquicas que atravessam a experiência humana. E, como analistas, podemos nos perguntar: o que aprendemos com ela sobre nossa própria capacidade de ir sendo no trabalho com os pacientes?
1. O vértice não é identidade, é função
O eu-lírico não é o herói, o rei, o juiz ou o peão. Ele se faz cada um deles, em um movimento de transformação contínua. A mudança de vértice é o próprio fio da narrativa. É como se a canção nos dissesse: o sujeito é menos uma essência do que uma função que se redefine a cada encontro com o outro e com o mundo. Na clínica, o analista também é chamado a transmutar-se. Em um instante, pode ser o continente que acolhe; no outro, o que sustenta o vazio de não saber; no seguinte, aquele que, por uma imagem inesperada, oferece uma nova dobra ao campo. Não se trata de representar papéis, mas de habitar vértices diferentes sem perder a bússola da função analítica. A canção nos lembra que a rigidez do vértice é empobrecimento. Quando o analista se apega a uma posição (o “bom analista”, o “interpretador”, o “silencioso”), perde a capacidade de se mover no campo. E o campo, como a canção, exige fluidez.
2. A transmutação como continência
Uma das imagens mais tocantes da música é a passagem do herói que “guardava o bodoque” e “ensaiava o rock” para o que se torna “o seu brinquedo”, “o seu peão”, “o seu bicho preferido”. É um movimento de entrega: sair da onipotência para se deixar ser usado pelo outro. Para o analista, essa é uma das transmutações mais difíceis: sair da posição de quem sabe para a posição de quem é usado pelo campo, de quem se deixa afetar, de quem sonha com o corpo o que o paciente ainda não pode sonhar com palavras. Quando o analista se permite ser “brinquedo” (no sentido de ser tomado pelo campo, de ser investido, de ser objeto de projeções), ele não está perdendo sua função; está exercendo-a em sua forma mais radical: a continência. A capacidade de suportar ser usado é a base da função que transforma impressões brutas em experiência pensável. É o que permite que o paciente projete, deposite, confie — e, com o tempo, retome.
3. A perda do vértice e a experiência de desorientação
“E agora eu era um louco a perguntar / o que é que a vida vai fazer de mim?” O verso final da canção nos coloca diante da descontinuidade radical. O brinquedo, o herói, o rei — tudo isso se desfaz quando o outro “sumiu no mundo sem me avisar”. O eu-lírico perde o vértice que o definia e se vê desorientado, louco. É a experiência do não-saber absoluto. Na análise, também há momentos em que o analista perde o vértice. A turbulência emocional do campo pode desorganizar sua capacidade de pensar. Ele se sente “louco”, sem saber o que está acontecendo. É quando a função que transforma a experiência parece colapsar, e o analista é tomado por sensações que não consegue simbolizar de imediato. Mas a canção, paradoxalmente, nos ensina que esse “louco” ainda é um vértice. Não é um erro, é um lugar. O analista que se sente perdido, se consegue sustentar esse estado sem agir, pode estar justamente em contato com o que o paciente não pode suportar. A desorientação compartilhada muitas vezes começa nessa aparente loucura.
4. O tempo da maldade: o que não estava lá
“No tempo da maldade / acho que a gente nem tinha nascido.” Há na canção uma referência a um tempo anterior — um tempo que não foi vivido, mas que ecoa. É como se o presente fosse uma encenação de algo que ficou fora da experiência. O “faz de conta” termina, e algo que não tinha sido se impõe. Para o analista, essa passagem ressoa com a ideia de que o campo pode encenar o que nunca pôde ser simbolizado. O que não nasceu, o que ficou de fora da experiência primitiva, retorna no setting. O analista, ao se deixar transmutar, ao perder e recuperar vértices, permite que o não nascido ganhe alguma forma — ainda que sob a aparência de um “faz de conta” que, de repente, se torna fatal.
5. Implicações práticas para o trabalho clínico
A partir da analogia com “João e Maria”, podemos extrair algumas orientações para o manejo técnico:
a) Observe seus próprios vértices. Ao longo de uma sessão, pergunte-se: de que lugar estou falando agora? Do herói (que quer salvar)? Do juiz (que julga)? Do brinquedo (que se deixa usar)? Do louco (que não sabe)? A pergunta não é para corrigir, mas para ampliar a consciência sobre como o campo está afetando sua posição.
b) Transmute-se com o campo, mas não se fixe. O analista não é obrigado a manter o mesmo vértice a sessão inteira. A plasticidade é parte da função. Se você se percebe rígido em uma posição, pergunte: o que o campo está pedindo que eu deixe de ser?
c) Sustente o “faz de conta”. O “faz de conta” da canção não é ilusão; é espaço de criação. Na análise, o paciente precisa desse espaço para experimentar outras versões de si, com a segurança de que o analista não será arrastado para a concretude. Sustentar o “como se” é função continente.
d) Não tenha medo da perda de vértice. Se você se sente “louco” em uma sessão, sem saber o que está acontecendo, isso pode ser um dado clínico. Acolha a sensação, não a elimine com interpretações apressadas. Depois da sessão, reflita: o que essa desorientação diz sobre o campo? O que ela me permite acessar que eu não acessaria se estivesse “sabendo”?
6. Conclusão:
O analista que se faz herói e peão Chico Buarque nos presenteia com uma canção que é, em si, um modelo do processo analítico: a transmutação contínua do sujeito em contato com o outro. O analista que consegue transitar entre vértices — que pode ser o herói sem se tornar salvador, o peão sem se submeter, o louco sem se desorganizar — oferece ao paciente um espaço onde é possível ir sendo si-mesmo, sem a exigência de ser um só. No final da canção, resta a pergunta: “o que é que a vida vai fazer de mim?”. É uma pergunta que, em análise, não é respondida, mas sonhada. E sonhá-la juntos, transmutando-nos no processo, é nossa tarefa.
