Ninguém fica em pé sem balançar
- Pedro Flávio Castro
- 6 de abr.
- 3 min de leitura
Você já reparou como a gente usa a palavra "equilíbrio" como se fosse uma foto? Como se fosse aquela pose estável, tudo no lugar, sem oscilação. Mas a verdade é que ninguém vive numa foto. A vida é vídeo. E vídeo treme, sacode, às vezes congela, às vezes acelera.
A gente cresce ouvindo que precisa ter equilíbrio. Equilíbrio entre trabalho e família, entre lazer e obrigação, entre cuidar dos outros e cuidar de si. Só que ninguém ensina que equilíbrio não é um ponto fixo. É um movimento constante. É mais equilibrismo do que equilíbrio.
Pensa num equilibrista de circo. Ele não fica parado em cima da corda. Ele se mexe o tempo todo. Os braços vão pra um lado, o tronco pro outro, o pé ajusta milímetros. Ele não está "em equilíbrio" – ele está se equilibrando. E isso é bem diferente.
Na vida, a mesma coisa. Tem dias que você dá conta de tudo: trabalho, filhos, estudo, academia, dieta. Tem dias que não dá conta nem de levantar da cama. E os dois estão certos. Porque a corda balança. E o que faz a gente não cair não é a rigidez – é a capacidade de se ajustar.
O problema é que a gente se cobra como se fosse uma estátua. "Hoje eu não fui produtivo." "Não consegui meditar." "Perdi a paciência com quem amo." E se a gente entendesse que esses "desequilíbrios" fazem parte do próprio movimento? Que oscilar é humano, e que a força não está
em nunca cair, mas em aprender a subir de novo?
Aí vem uma parte que muita gente tem medo de encostar: desistir. Porque a cultura do esforço infinito nos ensinou que desistir é fracasso. Que tem que persistir sempre, até o fim, mesmo que o fim não faça mais sentido. Mas e se desistir for, na verdade, um movimento inteligente do seu equilibrismo?
Imagina que você está numa corda e percebe que ela está podre. Que qualquer passo vai te levar a uma queda feia. O que o equilibrista faz? Ele sai da corda. Não porque não tem coragem, mas porque reconheceu que ali não é mais o lugar. Desistir da corda errada é o primeiro passo para encontrar a corda certa.
Desistir de um relacionamento que só te esvazia. Desistir de um trabalho que te adoece. Desistir de um curso que você escolheu por obrigação. Desistir de um projeto que já não te anima. Isso não é fraqueza. Isso é percepção fina. É saber ler o movimento da vida e entender: "aqui não dá mais. vou sair com cuidado, me reposicionar, e depois volto para outra corda."
Tem uma sabedoria antiga que diz: "A árvore que não se curva ao vento, quebra." A gente não foi feito de concreto. Fomos feitos de articulações, de músculos que tremem, de nervos que vibram. A instabilidade não é defeito – é característica. E a habilidade mais importante que a gente pode desenvolver é saber dançar com ela.
Por isso, se hoje você está num dia bom, aproveite. Se está num dia ruim, respire. Se está pensando em largar algo que já não te sustenta, considere: talvez essa seja a sua maior coragem até agora. Porque a vida não é sobre nunca cair. É sobre aprender a se levantar. E, mais do que isso, é sobre saber quando é hora de mudar de corda.
O equilíbrio perfeito não existe. Existe o movimento constante. Existe o tremer na corda e continuar. Existe o cair e rir. Existe o desistir de uma coisa para dar espaço para outra. No fim, o que importa não é a pose – é a dança.
Psicanalista Pedro Castro
📞 (12) 99175-1787
Membro do Instituto Ékatus




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