Quando a estrutura que te sustentava desaba
- Pedro Flávio Castro
- 26 de mar.
- 3 min de leitura

Você já sentiu que o chão sumiu debaixo dos pés? Não foi uma escolha. Não foi algo que você planejou. Simplesmente aconteceu: uma relação terminou, um emprego se foi, uma certeza que você carregava há anos de repente se mostrou falsa, ou talvez aquela velha forma de levar a vida deixou de fazer sentido, sem que você soubesse dizer por quê. É como se você tivesse perdido uma perna que nem sabia que tinha.
Clarice Lispector, uma escritora que entendia dessas coisas, chamava isso de “perder a terceira perna”. Uma perna que não servia para andar – porque com duas a gente já consegue – mas que mantinha você firme, equilibrado, seguro. Com ela, você era um tripé. Estável. Sem ela, você cai. Não para o chão, mas para dentro de um vazio que assusta.
E aí vem a confusão. A mente começa a perguntar sem parar: o que aconteceu? o que eu faço agora? o que isso diz sobre mim? É a tentativa desesperada de se agarrar a qualquer coisa que traga de volta a sensação de saber onde se está. A gente quer dar um sentido rápido, arrumar outra “terceira perna” qualquer – uma nova relação, um novo projeto, uma nova crença – só para não sentir o desconforto de estar no escuro.
Mas tem um detalhe: toda vez que a gente corre para tapar o buraco com uma resposta apressada, a gente perde a chance de descobrir o que poderia ter nascido ali, naquele intervalo vazio. Porque o desconforto de não saber, por mais que doa, é também o único lugar de onde pode surgir alguma coisa nova que realmente faça sentido para quem você é hoje.
Pense assim: uma casa que desabou. Dá para erguer outra no mesmo lugar, igual à anterior, com o mesmo projeto. Mas também dá para olhar os escombros com calma, sentir o espaço, perguntar o que você realmente precisa ali. Talvez seja uma casa menor, mas mais aconchegante. Talvez uma janela para um lado que antes não tinha. Talvez um jardim.
O problema é que a gente foi ensinado a ter medo desse intervalo. A cultura do trabalho, da produtividade, do sucesso – tudo isso nos empurra para a resposta rápida. Não para, não sente, não chora; resolve, segue em frente, arruma outro trampo, outra pessoa, outra rotina. Só que, quando fazemos isso, a gente leva para a nova estrutura o mesmo peso que fez a antiga ruir.
E se, em vez de correr para ajeitar tudo, a gente se permitisse um tempo de “desorganização”? Um tempo em que não precisa saber o que vem depois. Um tempo em que a única tarefa é estar ali, respirando, sentindo, deixando que a pergunta amadureça sozinha. Não é fácil. Dá medo. Dá a sensação de que você vai se perder para sempre. Mas, curiosamente, é nesse aparente vazio que a gente encontra o que realmente importa.
As pessoas que passaram por isso costumam dizer que, depois da crise, passaram a dar valor a coisas que antes ignoravam: um abraço demorado, uma conversa sem pressa, o silêncio compartilhado, a liberdade de não precisar provar nada para ninguém. Descobriram que a “terceira perna” que perderam não era tão essencial assim. E que, com apenas duas pernas, é possível caminhar – e até dançar.
Claro, ninguém escolhe passar por isso. Mas quando a vida impõe uma desconstrução, talvez a questão não seja como voltar ao que era, e sim o que pode nascer agora que eu não preciso mais ser quem eu era.
Se você está nesse momento – ou já passou por ele – saiba que não há rota certa. O que existe é um caminho que se faz ao andar, com a coragem de não ter todas as respostas. E, se puder, não ande sozinho. Ter alguém que segure sua mão enquanto você aprende a se equilibrar – um amigo, um parceiro, ou alguém que faz disso sua profissão – faz toda a diferença. Não porque essa pessoa vai te dar uma nova perna, mas porque ela te ajuda a suportar o tempo de aprender a ficar de pé sozinho.
No fim, o que fica não é a estrutura que desabou. É o que você descobriu sobre si mesmo enquanto olhava para os escombros.
Psicanalista Pedro Castro
📞 (12) 99175-1787
Membro do Instituto Ékatus



Comentários