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O CALOR DO DESERTO - Primeira leitura da canção Oceano - Djavan

  • Foto do escritor: Pedro Flávio Castro
    Pedro Flávio Castro
  • 29 de jul.
  • 6 min de leitura

Há canções que a gente ouve por anos sem saber que elas nos ouvem de volta. "Oceano", do Djavan, é uma dessas. Tem uma beleza que parece simples, mas que vai se abrindo como uma flor que desabrocha em câmera lenta – cada pétala é um sentido novo, cada verso é um convite a uma reflexão que a gente não sabia que precisava fazer.

Vou começar uma série de leituras dessa canção. Não sei quantas serão. Não importa. O que importa é que cada uma delas vai olhar para a música por um ângulo diferente, como quem gira uma pedra preciosa na mão e descobre uma face nova a cada movimento. Esta é a primeira.

Ela começa assim:

"Amar é um deserto e seus temores / Vida que vai na sela dessas dores / Não sabe voltar, me dá teu calor"

Amar é um deserto.

Que afirmação corajosa. A maioria das canções de amor fala de jardins, de primaveras, de flores. Djavan fala de deserto. Lugar de aridez, de escassez, de solidão. Lugar onde não há água, não há sombra, não há alívio fácil. Lugar onde a paisagem se repete até cansar, e o horizonte parece sempre à mesma distância, inalcançável.


E, no entanto, o deserto tem uma coisa que nenhum outro lugar tem: o calor mais intenso que a terra pode oferecer.


É isso que o eu lírico pede. Ele não pede água. Não pede sombra. Não pede milagre. Ele pede calor: "me dá teu calor."


A sabedoria desse pedido é imensa. Porque aprender a pedir o que o outro pode dar, e não o que a gente gostaria que ele tivesse, é uma das lições mais difíceis da vida amorosa. E talvez a mais libertadora.


A cilada do outro imaginado

Todo mundo já fez isso. Você conhece alguém. Há um encantamento, um brilho nos olhos, uma sensação de que algo importante está começando. E, nesse momento, a mente começa a trabalhar silenciosamente, preenchendo os espaços vazios com aquilo que você deseja. Você projeta: "Ela vai ser assim." "Ele vai gostar disso." "Vai me entender daquele jeito." "Vai saber o que eu preciso sem que eu precise dizer."

Você constrói um outro que não existe. Um outro ideal, feito de suas expectativas, seus medos, seus sonhos. E você se apaixona por essa construção – não pela pessoa real, mas pelo personagem que você criou.


Depois, o tempo passa. A convivência revela o que a imaginação escondia. O outro não é aquilo que você imaginou. Não tem a sensibilidade que você esperava. Não tem a disponibilidade que você desejava. Não te dá o que você achava que precisava. Não responde do jeito que você queria.


E aí vem a decepção. A frustração. A sensação de ter sido enganado.

Mas, na verdade, quem te enganou foi você mesmo. Você olhou para um deserto e pediu água. Olhou para uma paisagem árida e pediu sombra. Olhou para o outro e pediu aquilo que ele não tinha – e depois o acusou por não ser o que você inventou.


Receber é mais difícil do que exigir

Exigir é fácil. Todo mundo sabe exigir. Basta acreditar que o outro deve ser algo, que o outro nos deve algo, que o amor é uma troca onde tudo deve ser correspondido nos termos que a gente estipula.


Receber, por outro lado, é difícil. Receber exige humildade. Exige que a gente pare de olhar para o que falta e comece a olhar para o que está presente. Exige que a gente reconheça que o outro não é um poço inesgotável – é um deserto. E que, como todo deserto, ele tem o que tem. Não o que você gostaria que tivesse. Não o que você acha que ele deveria ter. Mas o que ele pode oferecer, com a sua história, suas limitações, sua beleza própria.


O que você ama no outro? O que ele é? Ou o que você quer que ele seja?

Se você ama o que ele pode ser – um potencial, uma promessa, um devir – você está amando uma fantasia. E a fantasia, mais cedo ou mais tarde, se desfaz. Você fica com o vazio. Com a sensação de que perdeu tempo. Com a raiva de quem esperou algo que nunca veio.


Mas se você ama o que ele é – com suas areias, seus ventos, seu sol escaldante – você aprende a receber. E, ao receber, você descobrirá que o deserto tem belezas que você nunca tinha notado.


A gratidão como ato de lucidez

Ser grato pelo que o outro te dá, e não pelo que ele não te dá, é um ato de lucidez. É olhar para o deserto e reconhecer: "Aqui tem calor. E é disso que eu preciso agora."

Você já experimentou isso? Aquela sensação de que, mesmo em uma conversa difícil, o outro te ofereceu algo genuíno – talvez apenas um silêncio que não julgava, talvez uma palavra simples, talvez um "não sei" sincero. E, naquele momento, você percebeu que aquilo era o que ele tinha para dar. E que, surpreendentemente, era o bastante. Era exatamente o que você precisava – não o que você achava que precisava, mas o que, na verdade, te fez bem.


A gratidão não é conformismo. Não é aceitar migalhas e dizer que é feijoada. É a capacidade de ver o que está ali, sem a névoa do desejo. É o reconhecimento de que o outro é outro – não uma extensão de você, não uma resposta aos seus anseios, mas um ser com sua própria geografia, seu próprio clima, sua própria maneira de existir no mundo.


Pequenos momentos de deserto e calor

Sabe quando você está cansado, chega em casa, e a pessoa que mora com você não pergunta "como foi seu dia" com a entonação que você esperava? Talvez ela pergunte de outro jeito: "Vamos comer alguma coisa?" ou simplesmente coloque a mesa sem dizer nada. E, ali, você pode sentir raiva porque não recebeu o cuidado que imaginou. Ou pode sentir gratidão porque, no deserto daquela pessoa, há o calor da presença, da rotina, da construção compartilhada.


Sabe quando um amigo não te dá o conselho que você queria ouvir, mas te ouve em silêncio, sem interromper, sem julgar? Você pode sentir frustração porque ele não te salvou com uma palavra certeira. Ou pode sentir gratidão porque, na aridez daquele silêncio, havia o calor de uma escuta que não se apressa.


Sabe quando alguém que você ama não tem as palavras para dizer "eu te amo" – mas está ali, dia após dia, fazendo pequenas coisas que ninguém vê? Você pode sentir falta do que não foi dito. Ou pode aprender a receber o que foi feito.


Não é que você deva se contentar com menos. É que você deve aprender a ver o que há. E, quando você vê, descobre que o deserto não é vazio – ele é cheio de uma vida diferente da que você esperava. E, muitas vezes, é exatamente a vida que você precisava.


Um convite para a série

Esta é a primeira leitura de "Oceano". Não sei quantas virão. Talvez três, talvez cinco, talvez nenhuma a mais – depende do que a canção ainda tem a nos dizer. Mas esta primeira leitura já nos deixou algo importante: a ideia de que amar é aprender a receber.


Amar não é exigir que o outro seja aquilo que você imaginou. Amar não é projetar no outro a salvação dos seus vazios. Amar é olhar para o deserto que o outro é, reconhecer o calor que ele tem, e ser grato por esse calor. Sem pedir água onde não há água. Sem reclamar de sombra onde não há sombra. Apenas receber – com as mãos abertas, com o coração quieto – o que o outro pode te dar.

E descobrir que, muitas vezes, o que ele pode te dar é o que você mais precisava.


Na próxima leitura, talvez falemos da sela, das dores que nos conduzem. Ou talvez do oceano, dessa imensidão que a gente se torna quando aprende a amar de verdade. Não sei ainda. A canção é que vai dizer.

Por enquanto, fica o convite: olhe para alguém que você ama. Veja o que ele tem para te dar. Não o que você gostaria, não o que você espera, não o que você acha que ele deveria ser. Veja o que ele tem. E seja grato.

Porque amar é quase uma dor, sim. Mas também é quase um deserto com calor – e esse calor, quando a gente aprende a recebê-lo, é o suficiente para atravessar qualquer noite.

 
 
 

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