O que a correria não deixa ver
- Pedro Flávio Castro
- 17 de mar.
- 4 min de leitura

Você já reparou como os dias passam num piscar de olhos? Acordamos, tomamos café correndo, enfrentamos trânsito, trabalhamos, resolvemos pendências, respondemos mensagens, chegamos em casa exaustos, jantamos rápido e, quando damos conta, já é hora de dormir para começar tudo de novo. No meio desse turbilhão, fica a pergunta: onde foi parar a vida?
Vivemos numa época que nos empurra para frente o tempo todo. A lógica é simples: trabalhe mais, ganhe mais, compre mais, tenha mais. O problema é que, nessa corrida sem fim, a gente vai deixando pelo caminho justamente o que não tem preço: um olhar demorado para quem amamos, uma conversa sem pressa, o silêncio partilhado, o sol da tarde, o abraço que acolhe. Essas coisas não cabem no extrato bancário. E é por isso que, muitas vezes, deixamos de vê-las.
O materialismo exacerbado não é apenas sobre querer coisas. É sobre um jeito de viver que transforma tudo em mercadoria, inclusive a gente mesmo. Nos tornamos nossa função, nosso cargo, nosso salário. E quando alguém pergunta "quem é você?", a resposta sai automática: "sou advogado, sou empresário, sou consultor". Como se a profissão desse conta de explicar a alma.
Mas a alma não produz relatórios. Ela não bate ponto. Ela não entrega resultados no fim do mês. A alma vive de afeto, de presença, de sentido. E quando a gente só vive para o trabalho, a alma vai definhando aos poucos. Um dia a gente acorda e descobre que os filhos cresceram sem a gente por perto. Que o parceiro ou parceira virou um estranho dentro de casa. Que os amigos sumiram. Que não há dinheiro no mundo que compre de volta o tempo que passou.
Tem uma frase que circula por aí, anônima, mas cheia de verdade: "Ninguém, no seu leito de morte, disse: 'queria ter passado mais tempo no escritório'." Porque no fim, o que importa são as memórias, os laços, os momentos que fizeram a gente se sentir vivo. E esses momentos raramente acontecem em frente ao computador.
Não se trata de demonizar o trabalho ou o dinheiro. Eles são importantes, claro. A questão é outra: será que você tem trocado o essencial pelo urgente? Será que, sem perceber, colocou a carreira no centro da sua vida e deixou o resto como coadjuvante? Será que o celular tem roubado a atenção que seus filhos merecem? Será que o cansaço tem sido desculpa para não estar presente?
A psicanalista Melanie Klein falava sobre a importância de integrar os afetos, de conseguir sentir tanto a alegria quanto a dor sem fugir. Quando a gente só corre atrás de dinheiro, muitas vezes está fugindo de algo: do vazio, da insatisfação, do medo de não ser suficiente. O problema é que o dinheiro preenche contas, mas não preenche a alma. Ele pode comprar uma casa, mas não um lar. Pode comprar uma cama, mas não o sono tranquilo. Pode comprar um relógio, mas não o tempo.
E o tempo, esse sim, é o bem mais precioso. Porque ele não volta. Cada minuto dedicado ao trabalho é um minuto que você não dedicou a si mesmo, à sua família, aos seus afetos. Não estou dizendo para largar tudo e virar um ermitão. Mas talvez seja hora de perguntar: o que realmente importa? O que eu quero lembrar quando estiver velho? O que me faz feliz de verdade?
A psicanálise nos ensina que a liberdade não é fazer tudo o que se quer, mas poder escolher. Escolher onde investir sua energia, seu tempo, seu coração. E muitas vezes, a gente vive no automático, repetindo padrões, sem nem perceber que está escolhendo – e escolhendo mal.
Olhe para sua vida hoje. Tem espaço para o afeto? Tem espaço para o ócio? Tem espaço para o silêncio? Tem espaço para quem você ama? Se a resposta for não, talvez esteja na hora de desacelerar. Porque a vida não é ensaio. Ela está acontecendo agora, enquanto você lê esse texto.
O Mujica dizia que "Quando você compra algo, não compra com dinheiro. Compra com o tempo de vida que teve que gastar para ter esse dinheiro ". E Rubem Alves afirma: “o prazer necessita de tempo” E desfrutar não é acumular. É sentir. É olhar nos olhos. É rir junto. É deixar o celular de lado e ouvir a história que seu filho quer contar. É deitar no sofá com quem você ama sem pressa para levantar.
O dinheiro pode comprar um jantar num restaurante caro. Mas não compra o prazer de cozinhar junto em casa, rindo das cebolas que fazem chorar. Pode comprar uma TV de última geração. Mas não compra o abraço apertado depois de um dia difícil. Pode comprar uma viagem para o exterior. Mas não compra a sensação de chegar em casa e ser recebido com um sorriso.
No fundo, o que a gente mais quer é simples: ser visto, ser amado, pertencer. E isso não tem preço. Isso se constrói no dia a dia, nas pequenas coisas, na presença. Não no excesso de trabalho, não na busca incansável por mais.
Então, se você tem se sentido esvaziado, mesmo com a conta bancária cheia, talvez seja hora de parar e escutar. Escutar o que seu corpo diz, o que seu coração pede, o que sua família espera de você. Eles não querem seu dinheiro. Eles querem você.
Porque no fim, a única coisa que realmente levamos da vida é a vida que vivemos. E a vida que vale a pena é aquela em que a gente se permite sentir, amar, parar. É aquela em que a gente não deixa escapar entre os dedos o que realmente importa.
Psicanalista Pedro Castro
(12) 99175-1787
Membro do Instituto Ékatus



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